
"Certa vez comecei a seguir uma forma. Eu não conseguia distinguir o que era. Mas fiquei curioso, e apaixonado pelo mistério e a segui sem saber onde ia.
Esta forma tomava caminhos estranhos, não seguia em linha reta, nem seguia algum tipo de sinal, se guiava por si mesma, tomando curvas perigosas, descendo íngremes barrancos. Eu não conseguia ver lógica em seu trajeto, então comecei a reparar naquela forma para conhecê-la mais. Era apaixonante, tinha uma atração natural. Chamava muita atenção por onde passava e tinha muita sensualidade embora não fosse uma forma bonita. Era bella por si só. Isso me corroía e eu ficava mais instigado a segui-la.
Todos que me passavam por mim me questionavam onde eu ia ou qual era o meu destino. Aventureiro e apaixonado, eu apenas respondia:
_Aquela forma irá me responder, e em breve conhecerei qual será nosso destino.
Todos me taxavam de louco, por seguir algo que nem eu mesmo conhecia. Mas eu continuava.
Durante anos eu a segui, e não tinha noção de tempo, cansaço ou mesmo de quanto eu me desgastava para seguir algo tão incostante. Mas aquela altura já estava imerso em uma inexplicável paixão por aquela “incostância”, e continuava, apenas pelo prazer de saber o que ela queria, ou onde chegaria.
Após um certo tempo, comecei a notar que já havia passado por vários lugares antes. Eu via as mesmas situações e pessoas. Ouvia os mesmo conselhos, e sempre tinha a sensação de já ter estado naquele lugar. Foi quando comecei a reconsiderar meu caminho e tentava me distanciar andando mais devagar na esperança daquela forma desaparecer no horizonte e nunca mais voltar. Somente assim, eu pensava, conseguirei me desvincular deste sentimento que me corrói me atraindo para este destino incerto. Mas isso não acontecia. A forma sentia minha distância e também mudava seu rumo e compasso para que eu a seguisse. Percebi que eu já havia virado seu companheiro de jornada e há muito ela, também, percebera isso. Não me deixaria ir ou me daria a oportunidade de saber onde ela estava indo. Era um laço invisível. Eu, preso por aquela paixão e curiosidade torturante, e ela presa no medo de continuar seu trajeto só.
Porém, há muito eu já me sentia cansado, e me questionava se já não era hora de deixá-la ir e seguir meu próprio caminho. Isso durou mais um tempo e a maldita curiosidade nunca me deixava tomar a minha decisão. Foi quando percebi que o caminho começava a ficar tortuoso demais, com mais quedas e curvas íngremes. Então… eu simplesmente parei. Deixei de andar. A forma estranhou, mas continuou seu caminho dando olhadelas para trás para saber onde eu estava. Ela se distanciou, distanciou até virar uma de suas curvas e eu não pude vê-la mais.
Me senti livre e perdido ao mesmo tempo. Em muitos anos era a primeira vez que eu não seguiria ninguém. Tomaria meus próprios passos, seguiria meu próprio caminho. Isso era uma libertação de espírito, sentir o laço invisível quebrado, sentir o corpo leve e LIVRE! Meu único problema agora e a escolha de um novo caminho, escolher um destino, fazer meu próprio traejto. Comecei então, sem perceber, a dar meus primeiros passos na vida livre que acabara de conquistar. Fui virando aqui e ali, subindo e descendo morros por mim mesmo, comecei a escrever meu novo percurso. Somente por mim, sem depender de ninguém.
Não sei ainda qual será meu destino, ou onde quero chegar. O que me alegra é que agora eu estou por minha própria conta e risco. O importante é não parar.
Talvez um dia eu cruze nesta infinidade de caminhos com aquela forma estranha e sem destino. Mas será apenas uma coincidência de destinos, proporcionado pelas encruzilhadas da vida. Nada mais."
Alvaro