sábado, 27 de novembro de 2010

Um ponto oito




Dentro do meu carro

A estabilidade
Me faz acreditar
Que está tudo bem
Tudo em seu lugar

E logo me esqueço
Tudo tem seu preço
Aumento a velocidade
E atravesso a cidade
Sem pensar
Sem pensar
Sem pensar

Em mais ninguém
A não ser em quem gosta de mim
Me esqueci numa curva que fiz
Tão veloz que o amor
Não morreu por um triz
Não morreu por um triz

Mas naquela estrada
Naquela madrugada
Acho que matei alguém
E no mesmo instante
Morri um pouco também

Fui até ao rapaz
Que ainda vivia
E vendo ele morrer
Sem saber o que fazer
Segurei sua mão fria

Vi que era pobre
Moço sem instrução
Cheirava a pinga barata
Uma aliança no dedo
Talvez fosse um ladrão

Ajoelhei-me ao seu lado
Me disse o atropelado:
Fiquei com a pior parte
De tudo o que é chamado
Civilização

Devolva este anel
Pra dona daquele bordel
Foi lá que eu roubei
Diga pro dono do bar
Que minha conta encerrei

Silenciou de repente
Gemeu como um cão
E sobre o asfalto quente
Seu sangue escorreu suavemente
Todo pelo chão

Olhei a cidade
Olhei pro meu carro
Voltei a correr
Pensei em fugir
Quis não mais viver

Quis não mais viver
Com mais ninguém
A não ser com quem gosta de mim
Me esqueci numa curva que fiz
Tão veloz que o amor
Não morreu por um triz
Não morreu por um triz

Olhei a cidade
Olhei pro meu carro
Voltei a correr
Pensei em fugir
Quis não mais viver
Quis não mais viver
Quis não mais viver

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Palavra de tigre!




"
são dogmas impostos pela sociedade
se o seu amigo disse que não estava contente com o seu jeito
é porque temos que ser sérios sem sal e vaquinhas de presépio a maior parte do tempo com as pessoas.
se você começa a ser antagonico disso constrange quem ta proximo de você,
eu sou excluida na minha sala por não gostar de restart ou funk imagina se eu chega-se falando o que eu penso e fazendo brincadeiras o tempo todo
ai sim eu seria totalmente odiada, então temos que nos conter
eu tenho sim uns amigos na escola e com eles eu sou o que realmente sou
falo o que eu penso
de tudo
e ajo como eu sou
mas não se sinta ofendido por ele, ainda mais um amigo seu. por mais que pensamos e ajamos de maneira incompreensiva pelo geral alienado globalizado ainda sim temos um lugar ao sol
"

Assim disse o tigre listrado

Amo muito!

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Averso



E eles gritarão aos quatro ventos, sentimentos, sentimentos!
eles clamarão seus sentimentos, aos quatro ventos, quatro ventos!
eles dirão sobre suas manias, teceram prosódias sobre sua beleza
sofrerao com a incerteza de um ser o escolhido e nao o desejado em si.
Tolos todos eles, presos a quimera insana e insensata,
litanicos em suas bravatas,imersos em suas lacívias,
e um dia olharão para
a estrada se perguntando porque?
e eu rindo la sentado, observando atento e debochado dizendo:
Fizeram por merecer!

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Versos Íntimos


Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

Augusto dos Anjos

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Aquela forma estranha e incostante.


"Certa vez comecei a seguir uma forma. Eu não conseguia distinguir o que era. Mas fiquei curioso, e apaixonado pelo mistério e a segui sem saber onde ia.

Esta forma tomava caminhos estranhos, não seguia em linha reta, nem seguia algum tipo de sinal, se guiava por si mesma, tomando curvas perigosas, descendo íngremes barrancos. Eu não conseguia ver lógica em seu trajeto, então comecei a reparar naquela forma para conhecê-la mais. Era apaixonante, tinha uma atração natural. Chamava muita atenção por onde passava e tinha muita sensualidade embora não fosse uma forma bonita. Era bella por si só. Isso me corroía e eu ficava mais instigado a segui-la.

Todos que me passavam por mim me questionavam onde eu ia ou qual era o meu destino. Aventureiro e apaixonado, eu apenas respondia:

_Aquela forma irá me responder, e em breve conhecerei qual será nosso destino.

Todos me taxavam de louco, por seguir algo que nem eu mesmo conhecia. Mas eu continuava.

Durante anos eu a segui, e não tinha noção de tempo, cansaço ou mesmo de quanto eu me desgastava para seguir algo tão incostante. Mas aquela altura já estava imerso em uma inexplicável paixão por aquela “incostância”, e continuava, apenas pelo prazer de saber o que ela queria, ou onde chegaria.

Após um certo tempo, comecei a notar que já havia passado por vários lugares antes. Eu via as mesmas situações e pessoas. Ouvia os mesmo conselhos, e sempre tinha a sensação de já ter estado naquele lugar. Foi quando comecei a reconsiderar meu caminho e tentava me distanciar andando mais devagar na esperança daquela forma desaparecer no horizonte e nunca mais voltar. Somente assim, eu pensava, conseguirei me desvincular deste sentimento que me corrói me atraindo para este destino incerto. Mas isso não acontecia. A forma sentia minha distância e também mudava seu rumo e compasso para que eu a seguisse. Percebi que eu já havia virado seu companheiro de jornada e há muito ela, também, percebera isso. Não me deixaria ir ou me daria a oportunidade de saber onde ela estava indo. Era um laço invisível. Eu, preso por aquela paixão e curiosidade torturante, e ela presa no medo de continuar seu trajeto só.

Porém, há muito eu já me sentia cansado, e me questionava se já não era hora de deixá-la ir e seguir meu próprio caminho. Isso durou mais um tempo e a maldita curiosidade nunca me deixava tomar a minha decisão. Foi quando percebi que o caminho começava a ficar tortuoso demais, com mais quedas e curvas íngremes. Então… eu simplesmente parei. Deixei de andar. A forma estranhou, mas continuou seu caminho dando olhadelas para trás para saber onde eu estava. Ela se distanciou, distanciou até virar uma de suas curvas e eu não pude vê-la mais.

Me senti livre e perdido ao mesmo tempo. Em muitos anos era a primeira vez que eu não seguiria ninguém. Tomaria meus próprios passos, seguiria meu próprio caminho. Isso era uma libertação de espírito, sentir o laço invisível quebrado, sentir o corpo leve e LIVRE! Meu único problema agora e a escolha de um novo caminho, escolher um destino, fazer meu próprio traejto. Comecei então, sem perceber, a dar meus primeiros passos na vida livre que acabara de conquistar. Fui virando aqui e ali, subindo e descendo morros por mim mesmo, comecei a escrever meu novo percurso. Somente por mim, sem depender de ninguém.

Não sei ainda qual será meu destino, ou onde quero chegar. O que me alegra é que agora eu estou por minha própria conta e risco. O importante é não parar.

Talvez um dia eu cruze nesta infinidade de caminhos com aquela forma estranha e sem destino. Mas será apenas uma coincidência de destinos, proporcionado pelas encruzilhadas da vida. Nada mais."

Alvaro

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Decretos



Ávido desparate, em lúcido bloqueio
sou eu um caso a parte
estou eu no mundo do meio
sou sendo o indo conturbado
o julgo dos antigos
no novo já talhado
interessantes são as vinhas
essas quimeras de deleite milenar
quem mais adeja e pousa
no vinhenho a murmurar
sou eu, sou eu,
que bebe o líquido ardente
sou eu sou eu, o vinho
a uva e o vivente
queimo e o queimar me sustenta
morro e o caixão me ostenta
enterro esse sonho
eterno esse sonho
que enterro nesse mundo
que sufoco nesse imundo...

Taciano Junes

segunda-feira, 7 de junho de 2010

"Mi sangre"


Passei a vida vendo o que era preciso ser visto, enquanto as pessoas a minha volta viam e viviam apenas aquilo que desejavam ver, construindo verdades pela metade. Hoje eu rogo que eu consiga ver apenas o que convém ver, como eles, os outros, mas é tarde para mim, eu já vejo o que preciso ver a tempo demais, eu já não faço parte do existir deles que mentem para si mesmos, para matar a consciência e viver um mundo de mentiras.

terça-feira, 1 de junho de 2010

MINHA'ALMA É TRISTE

I
Minh'alma é triste como a rola aflita
Que o bosque acorda desde o albor da aurora,
E em doce arrulo que o soluço imita
O morto esposo gemedora chora.

E, como a rola que perdeu o esposo,
Minh'alma chora as ilusões perdidas,
E no seu livro de fanado gozo
Relê as folhas que já foram lidas.

E como notas de chorosa endecha
Seu pobre canto com a dor desmaia,
E seus gemidos são iguais à queixa
Que a vaga solta quando beija a praia.

Como a criança que banhada em prantos
Procura o brinco que levou-lhe o rio,
Minh'alma quer ressuscitar nos cantos
Um só dos lírios que murchou o estio.

Dizem que há gozos nas mundanas galas,
Mas eu não sei em que o prazer consiste.
- Ou só no campo, ou no rumor das salas,
Não sei porque - mas a minh'alma é triste!

II
Minh'alma é triste como a voz do sino
Carpindo o morto sobre a laje fria;
E doce e grave qual no templo um hino,
Ou como a prece ao desmaiar do dia.

Se passa um bote com as velas soltas,
Minh'alma o segue n'amplidão dos mares;
E longas horas acompanha as voltas
Das andorinhas recortando os ares.

Às vezes, louca, num cismar perdida,
Minh'alma triste vai vagando à toa,
Bem como a folha que do sul batida
Bóia nas águas de gentil lagoa!

E como a rola que em sentida queixa
O bosque acorda desde o albor da aurora,
Minh'alma em notas de chorosa endecha
Lamenta os sonhos que já tive outrora.

Dizem que há gozos no correr dos anos!...
Só eu não sei em que o prazer consiste.
- Pobre ludíbrio de cruéis enganos,
Perdi os risos - a minh'alma é triste!

III
Minh'alma é triste como a flor que morre
Pendida à beira do riacho ingrato;
Nem beijos dá-lhe a viração que corre,
Nem doce canto o sabiá do mato!

E como a flor que solitária pende
Sem ter carícias no voar da brisa,
Minh'alma murcha, mas ninguém entende
Que a pobrezinha só de amor precisa!

Amei outrora com amor bem santo
Os negros olhos de gentil donzela,
Mas dessa fronte de sublime encanto
Outro tirou a virginal capela.

Oh! quantas vezes a prendi nos braços!
Que o diga e fale o laranjal florido!
Se mão de ferro espedaçou dois laços
Ambos choramos mas num só gemido!

Dizem que há gozos no viver d'amores,
Só eu não sei em que o prazer consiste!
- Eu vejo o mundo na estação das flores...
Tudo sorri - mas a minh'alma é triste!

IV
Minh'alma é triste como o grito agudo
Das arapongas no sertão deserto;
E como o nauta sobre o mar sanhudo,
Longe da praia que julgou tão perto!

A mocidade no sonhar florida
Em mim foi beijo de lasciva virgem:
- Pulava o sangue e me fervia a vida,
Ardendo a fronte em bacanal vertigem.

De tanto fogo tinha a mente cheia!...
No afã da glória me atirei com ânsia...
E, perto ou longe, quis beijar a s'reia
Que em doce canto me atraiu na infância.

Ai! Loucos sonhos de mancebo ardente!
Esp'ranças altas... Ei-las já tão rasas!...
- Pombo selvagem, quis voar contente...
Feriu-me a bala no bater das asas!

Dizem que há gozos no correr da vida...
Só eu não sei em que o prazer consiste!
- No amor, na glória, na mundana lida,
Foram-se as flores - a minh'alma é triste!

Casimiro de abreu
Março 12. - 1858.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

É ela uma menina, parece de plumas

E seu canto inaudível acompanha desde muito a migração dos

ventos

Empós meu canto. É ela uma menina.

Como um jovem pássaro, uma súbita e lenta dançarina

Que para mim caminha em pontas, os braços suplicantes

Do meu amor em solidão. Sim, eis que os arautos

Da descrença começam a encapuçar-se em negros mantos

Para cantar seus réquiens e os falsos profetas

A ganhar rapidamente os logradouros para gritar suas mentiras.

Mas nada a detém; ela avança, rigorosa

Em rodopios nítidos

Criando vácuos onde morrem as aves.

Seu corpo, pouco a pouco

Abre-se em pétalas... Ei-la que vem vindo

Como uma escura rosa voltejante

Surgida de um jardim imenso em trevas

Ela vem vindo... "

Vinícuis de Moraes
A brusca poesia da mulher amada